Parque da Luz

Hoje venho aqui, lhes apresentar, uma pequena crônica escrita por uma amiga perfeitamente maravilhosa que consegue colocar o coração no papel. Espero que apreciem. 
Toda semana ela ira presentear a nós  com um pedacinho de seus sentimentos.



Um menino engraçado, tão desajeitado, no parque da luz

Vendia sapato usado, gibi já lido, colar de cruz
Andava tão distraído, tão feio, mas tão querido
Era de dar gosto
Sorriso sincero e belo
Mas dente tão amarelo
Contraste no céu de agosto.
Usava camisa frouxa, na mão a bolsa pra levar troco
Gritava pros transeuntes
Banhava-se em suas fontes
E os guardas já nem ligavam
Vivia um pouquinho rouco, menino louco, desconsolado
Vendia uma vez ou outra, sapato pouco, senão roubavam.
Roubava sem ser notado, pipoca alheia pra dar aos patos
Dançava sobre o coreto, dizia o preto que fez boatos
Olhava as moças que lá cantavam
E as meninas que lá dançavam
Mandava beijo, jogava flor
Tão novo, mas tão esperto
Tão longe, mas sempre perto
Mas certo do que era amor
Um dia, Luna Maria, cantora mais bela de um bom quarteto
Que era uma dançarina, também menina lá do coreto
Desceu do palco na praça, sorrindo e fazendo graça
Beijou no rosto o guri
Que então lhe jogou a rosa
Quando essa foi toda prosa
Pro lago que tinha ali.
Seguindo todo encantado o sonho amado daquela fada
Correndo em sua direção, dispara-lhe o coração
E aí não entende nada
A moça cantora, menina
Um anjo e uma bailarina
No lago do parque atirou-se
E ele desesperado, corria desengonçado
Gritava pedindo ajuda
Mas lá ninguém se importava
Tampouco se aproximava
Então foi que veio a chuva
O povo foi todo embora
E a idéia que teve outrora
Caía como uma luva
Chegou tilintando de frio
Na beira daquele rio
Ou lago, seja o que for
Olhou de um jeito parado
O lago liso e gelado
Martírio de sua dor.
Pulou sem pensar duas vezes
Com dois colarzinhos de cruzes
E em meio à diversas luzes,
Que agora já se ascendiam
Jogou-se no meio das águas
Com todas aquela línguas
Que estúpidas o engoliram.
No fundo não tinha pista
O breu lhe tapava a vista
E o ar quase lhe faltava
E ao contrário do que muitos pensam
Do que muitos homens acham
Do que muitos outros falam
Do que muitos pensam e calam
O vendedor de sapatos usados, gibis já lidos, colar de cruz
Que andava tão distraído e desajeitado no Parque da Luz
Quando viu que seu ar sumia
E que se assumia em forma mortal
Não lutou por sobrevivência,
Pois tanta era sua carência
Que quis morrer afinal.
Não viu luzes, não viu anjos
Não viu Deus, não viu arcanjos
Não viu nada, só a fada
Que crescia em seu olhar
Com flores nos seus cabelos
E brilho na ponta dos cílios
Vestia rosa e lilás.
Beijou-lhe sua mão pequena
Mocinha e de voz serena
E deu-lhe um gibi colorido
Que quando o guri abriu
Estrela dele saiu
Brilhando seu brilho ardido.
Montados na estrela, subiram
Olharam-se, então partiram
Deixando suas marcas ao léu
E aqui este caso se encerra
Boiaram seus corpos na Terra
E as almas boiavam no céu




Por : Thaís Santesi.

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